Dobras da Comunidade

Mulheres on line

O poder da multidão em criar relações sociais
em comum coloca-se entre a soberania e a anarquia,
com isto apresentando uma nova possibilidade
de fazer política.
(Hardt e Negri)

O desafio de um programa de inclusão digital não é calcado no acesso ao computador. Hoje a interface de estar na rede é, principalmente, o computador. Esta interface está se adaptando rapidamente para outras máquinas. No processo de inclusão digital temos que pensar na maneira que as pessoas se apropriam das tecnologias e, principalmente, como se relacionam com a informação. Uma via de mão dupla se abre. As pessoas tem que se enxergar nessa nova perspectiva.

Chamamos de Dobras da Comunidade quando a comunidade “se vê”. Um dispositivo que opera como registro de uma determinada atividade ou de um grupo e que ao ser revelado para este mesmo grupo, afeta a sua própria constituição, identificação e dinâmica. Os efeitos são a própria produção dessa identidade comunitária, ou desse corpo coletivo. Utilizamos uma metodologia de intervenção social baseada na antropologia visual combinada com técnicas de facilitação de grupos e metodologia de projetos. O projeto de webvídeos no Lidec foi críado pensando nesse cenário.

Um dos exemplos é o Mulheres Online. Este projeto está vinculado a Rede de Projetos, uma iniciativa do Programa Acessa São Paulo que objetiva uma maior imersão do cidadão às tecnologias sociais e ao uso qualificado dos computadores e da internet em beneficio pessoal e da comunidade.

O Mulheres Online nasceu de uma idéia simples de Anderson Douglas da Silva, 21 anos e estudante de pedagogia. Ele percebeu que algumas mulheres de Iepê, uma pequena cidade perto do Paraná, estavam com dificuldades para começar a usar os computadores e a tão falada Internet.

Anderson, então, montou um curso e deu o nome de Mulheres Online. A idéia era formar um grupo de mulheres com o mesmo interesse e a partir daí descortinar os mistérios da informática e do mundo digital.

A Rede de Projetos funciona assim. A pessoa tem uma idéia que envolva a internet ou informática, e os moderadores do Lidec – Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária da Escola do Futuro – USP ajudam a estruturá-la no formato de projeto utilizando um ambiente colaborativo (wiki) e listas de discussão. E, é a partir da necessidade e desejo local que a experiência de aprendizagem e apropriação da tecnologia é construída.

Na primeira versão do Mulheres Online havia 98 mulheres inscritas. Essa primeira turma durou cerca de 5 meses. O grupo era composto só por mulheres e com diferentes perfis, empregadas domésticas, cortadoras de cana, professoras, aposentadas, até a mulher do prefeito encarou o desafio.

Com o tempo o projeto Mulheres Online começou a se destacar dos outros projetos pela intensa participação nos debates e nas listas . As ‘alunas’ eram muito aplicadas e o curso estava trazendo uma grande alegria e satisfação em suas vidas.

Foi quando decidimos que seria importante ver essa experiência de perto. Parte da equipe da Rede de Projetos foi ate Iepê, e registrou através de entrevistas e mídia áudio visual a vida cotidiana dessas mulheres e qual o impacto da tecnologia em suas vidas.

Dessa visita foi feito um documentário de curta duração, menos de 5 minutos, chamado Mulheres Online. O vídeo Mulheres Online esta disponível no blog do AcessaSP e em todos os repositórios de vídeos, como o Youtube, Google Vídeo, MySpace e etc. Para poder visualizar pode acessar o link: http://www.youtube.com/watch?v=IQ3dcminZZQ

Dobras da Comunidade

Todos sabemos das enormes dificuldades por que passam projetos envolvendo grupos e comunidades. Camila Alves, monitora e professora, comentou: ‘O projeto Mulheres Online foi uma das melhores coisas, acredito eu que aconteceram esse ano na nossa cidade, Ver essas mulheres trabalhando tanto e depois ainda tendo tempo e cabeça para pensar em melhorar seus conhecimentos e ampliar seus horizontes através do computador é maravilhoso, pois provam a elas e a nós mesmos que existe uma vida melhor é só querer, a força de vontade dessas mulheres é incrível e a capacidade delas e interesse de aprender também, espero que cada vez mais mulheres consigam ter essa força de vontade e essa esperança de que o mundo é você quem faz, afinal com o término desse projeto garanto a elas que aparecerão muitas oportunidades de conseguirem uma vida melhor e cada vez mais aumentarem seus méritos.’

Merielem Soares da Cruz diz que ‘Estou muito admirada como a internet mudou muito a vida dessas mulheres, espero que esse projeto continue por muito mais tempo.’

Pesquisas desenvolvidas no cruzamento da economia com a sociologia têm apresentado resultados importantes para a reflexão sobre a ação coletiva. Como assinala o professor e filosofo Rogério da Costa ( http://www.pucsp.br/linc) “Elas tratam da forma como os indivíduos atuam em grupo e de como suas preferências e interesses pessoais podem não ser determinantes para sua ação na dimensão do coletivo.” Esse é um dado importante para nosso trabalho, pois sociólogos e economistas clássicos acreditam, como o senso comum, num prolongamento natural dos interesses individuais no contexto de grupos. Desta forma, o comentário de Marisa Batista de Souza Luiz é emblemático: ‘O projeto mulheres online está sendo de grande valia a todas nós, por dar mais uma oportunidade à nossa vida.’ Ou seja, o benefício para o sujeito e o benefício à comunidade.

Como já foi dito, a Antropologia Visual é operativa e sistêmica. Os comentários feitos a partir do vídeo retroalimentam e co-produzem o contexto inicial. Inês Aparecida de Oliveira Campos concluiu: ‘Eu gostei muito porque não tenho nunca tive vergonha de qualquer trabalho que fiz ou que faço porque sempre faço com muita dignidade e honestidade e vai ai uma frase: Lutar sempre desistir jamais.’

Rogério da Costa diz que os estudos como os de Howard Rheingold, por exemplo, vêm comprovando que a sinergia entre as pessoas via web, dependendo do projeto em que estejam envolvidas, pode ser multiplicada com enorme sucesso. As diversas formas de comunidades virtuais, a estratégia P2P, as comunidades móveis, a explosão dos blogs são prova de que a infra-estrutura de telecomunicações constitui uma fator potencial no incremento do capital social e cultural disponível.

A comunidade ao dobrar-se em si mesma, ou seja, a dobra da comunidade, como a comunidade se enxerga após a distribuição do vídeo e como ela se reconhece ao se perceber como participante do mundo digital, contribuiu para que o projeto Mulheres Online aumentasse em sua segunda edição para 115 mulheres e mais 120 mulheres na lista de espera.

Mulheres Online começou com uma 1 turma. Atualmente são 19 turmas. Começou com dois professores. Hoje são cinco. Uma das novas professoras foi inclusive aluna da primeira turma.

Impacto

Após o vídeo, as mulheres participantes do projeto montaram uma espécie de associação para vender salgados pela web. Com o dinheiro da venda já organizaram uma excursão (o que para muitas significou sair pela primeira vez da cidade numa viagem turística)

Mulheres Online é um exemplo de comunidade dinâmica, da estimulação pela comunicação boca a boca, pela vontade de romper com as amarras da desinformação. Exemplo de um grupo de pessoas que optou afirmar a potência de seus recursos e não ficar em contato apenas com a falta deles.

A grande aposta é a possibilidade de desenvolvermos modelos que possam explicar e estabelecer novas formas de participação e que nos leve, quem sabe, a uma democracia mais participativa e inteligente. É impossível imaginar mudanças fundamentais como crescimento de um país com mais justiça social e melhoria na qualidade de vida, numa sociedade sem a ação coletiva e a união das pessoas em torno e na construção de interesses comuns. Nesse sentido, o uso das novas tecnologias de comunicação e informação, em especial, a internet, deverão ter grande influência e impacto.

 

por Drica Guzzi e Hernani Dimantas; com a colaboração de toda a equipe do Lidec – Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária - Escola do Futuro – USP – projeto aprovado no FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica;

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